Uma traição pode abalar profundamente uma relação. Não afeta apenas a confiança, pode também mudar a forma como olhas para o teu parceiro, para ti própria e para a intimidade que existia entre vocês.
Mesmo quando ambos decidem continuar juntos, isso não significa que tudo volte imediatamente ao normal.
Recuperar a intimidade depois de uma traição é possível em algumas relações, mas exige tempo, comunicação, responsabilidade e vontade genuína das duas pessoas. Mais importante ainda, recuperar a intimidade não significa esquecer o que aconteceu. Significa perceber se é possível construir novamente segurança dentro da relação.
Não tenhas pressa em voltar ao que eram
Depois de uma traição, existe por vezes uma vontade de recuperar rapidamente a relação.
Podem surgir mais encontros, mais demonstrações de carinho e até uma vida sexual mais intensa durante algum tempo. Noutras situações acontece precisamente o contrário, qualquer contacto físico provoca desconforto, raiva ou insegurança.
Não existe uma reação correta.
O erro está em usar a intimidade como prova de que “já está tudo bem”.
Podes querer abraçar o teu parceiro hoje e amanhã precisar de distância. Podes sentir desejo e, ao mesmo tempo, continuar magoada.
Estas emoções podem coexistir.
Primeiro, é preciso reconstruir a segurança
É difícil existir verdadeira intimidade quando estás constantemente a perguntar onde a outra pessoa está, com quem fala ou se aquilo que te diz é verdade.
Antes de recuperar a vida sexual, pode ser necessário recuperar uma sensação básica de segurança.
Quem traiu tem uma responsabilidade importante neste processo.
Reconhecer o impacto das próprias escolhas, responder às questões necessárias, cumprir aquilo que combina e demonstrar consistência pode ajudar a reconstruir gradualmente a confiança.
Pedir desculpa é importante, mas normalmente não é suficiente.
A confiança tende a regressar através do comportamento repetido ao longo do tempo.
Falem sobre o que aconteceu, mas estabeleçam limites
Ignorar completamente uma traição raramente resolve aquilo que ficou por dizer.
Ao mesmo tempo, passar todas as noites a discutir os mesmos acontecimentos também pode tornar-se emocionalmente desgastante.
Tentem criar momentos específicos para conversar.
Podes explicar aquilo que sentiste, fazer as perguntas de que precisas e dizer claramente aquilo de que necessitas para considerar continuar a relação.
Nem todos os detalhes são necessariamente úteis. Conhecer pormenores sexuais muito específicos, por exemplo, pode alimentar comparações e imagens mentais difíceis de abandonar.
Procura as respostas que te ajudam a compreender o que aconteceu e a tomar decisões, não necessariamente todos os detalhes possíveis.
Não uses o sexo para testar a relação
Depois de uma traição, o sexo pode tornar-se uma espécie de teste.
“Se ainda temos desejo, significa que vamos ficar bem.”
“Se não consigo ter sexo, significa que já não o amo.”
Nenhuma destas conclusões é necessariamente verdadeira.
O desejo sexual pode continuar a existir mesmo quando estás profundamente magoada. Também pode desaparecer temporariamente mesmo que continues a amar a outra pessoa.
Não precisas de usar o sexo para descobrir se a relação ainda tem futuro.
Essa resposta constrói-se através de muitas outras coisas, como confiança, respeito, comunicação, responsabilidade e vontade de continuar.
Recupera primeiro formas simples de intimidade
Intimidade não significa apenas sexo.
Depois de uma traição, pode ser mais fácil começar por recuperar pequenas formas de proximidade.
Dar as mãos, abraçar, conversar na cama, fazer uma massagem, sair juntos ou simplesmente passar algum tempo sem telemóveis pode ajudar a reconstruir ligação emocional.
Também podes estabelecer limites claros.
Por exemplo, podes querer carinho e contacto físico, mas ainda não te sentires preparada para sexo.
Dizer isso evita que cada abraço seja interpretado como um convite para avançar.
Quando sabes que podes parar a qualquer momento, o contacto pode voltar a parecer seguro.
Fala sobre sexo antes de voltar a ter sexo
Pode parecer pouco espontâneo, mas conversar antes de retomar a atividade sexual pode evitar muitos momentos difíceis.
Pergunta a ti própria:
Sinto vontade ou sinto obrigação?
Tenho medo de alguma coisa?
Existem práticas que neste momento me deixam desconfortável?
O que me faria sentir mais segura?
Depois, partilha aquilo que considerares importante.
Também é perfeitamente legítimo mudar de ideias. Ter iniciado um momento íntimo não significa que tenhas de continuar até ao fim.
Consentimento pode ser retirado a qualquer momento.
Evita comparações com a outra pessoa
Uma das consequências mais dolorosas da traição pode ser começar a comparar-te com a terceira pessoa.
“Era mais atraente?”
“O sexo era melhor?”
“O que tinha que eu não tenho?”
Estas perguntas são compreensíveis, mas podem tornar-se destrutivas.
A decisão de trair pertence a quem a tomou. Não é uma competição que perdeste porque outra pessoa era mais bonita, interessante ou sexualmente disponível.
Quando estas comparações aparecem durante a intimidade, tenta voltar a atenção para aquilo que estás realmente a sentir naquele momento.
Recuperar a sexualidade também implica voltar a sentir que o teu corpo e o teu prazer te pertencem.
Não transformes o sexo numa forma de compensação
Quem traiu pode sentir que não tem direito a recusar sexo.
Quem foi traído pode sentir necessidade de sexo frequente para confirmar que continua a ser desejado.
Nenhuma destas dinâmicas é saudável quando nasce da culpa, do medo ou da obrigação.
Sexo não deve funcionar como pedido de desculpas, castigo ou garantia de fidelidade.
Uma vida sexual saudável precisa de consentimento das duas pessoas, mesmo quando a relação está a recuperar de uma quebra de confiança.
Voltem a descobrir o que vos aproxima
Uma relação pode mudar depois de uma traição.
Se decidirem continuar juntos, não precisam necessariamente de tentar recriar exatamente a relação que existia antes.
Podem aproveitar este momento para conversar sobre coisas que anteriormente evitavam.
O que vos fazia sentir próximos?
O que estava a faltar na relação?
Como gostam de receber carinho?
O que desejam sexualmente?
Que limites precisam de estabelecer?
O que significa fidelidade para cada um?
Estas conversas não servem para justificar uma traição. Problemas numa relação podem ser responsabilidade dos dois, mas a decisão de trair pertence a quem a tomou.
Servem, isso sim, para perceber que tipo de relação querem construir daqui para a frente.
Protege também a tua saúde sexual
Se a traição envolveu contacto sexual com outra pessoa, a saúde sexual deve fazer parte da conversa.
Pode ser apropriado realizar testes para infeções sexualmente transmissíveis, dependendo do tipo de contacto, utilização de preservativo e outros fatores de risco.
Até esclarecerem a situação, podem ser necessárias medidas de proteção.
Um médico ou outro profissional de saúde pode indicar quais os testes adequados e quando devem ser realizados, já que diferentes infeções têm períodos de deteção diferentes.
Esta conversa pode ser desconfortável, mas cuidar da saúde de ambos também faz parte da reconstrução da confiança.
Aceita que podem existir gatilhos
A recuperação nem sempre acontece de forma linear.
Podes passar várias semanas a sentir que tudo está melhor e, de repente, uma mensagem no telemóvel, um lugar, uma música ou determinada situação pode trazer novamente insegurança.
Isso não significa necessariamente que voltaste ao ponto de partida.
Quando acontecer, tenta comunicar aquilo que estás a sentir sem transformar imediatamente o momento numa acusação.
Por exemplo:
“Quando escondes o telemóvel, fico insegura por causa do que aconteceu.”
É diferente de:
“Estás outra vez a esconder alguma coisa.”
A primeira frase comunica uma emoção e abre espaço para uma conversa. A segunda parte imediatamente de uma conclusão.
Não coloques um prazo para perdoar
Perdoar não acontece porque passaram três meses, seis meses ou um ano.
Também não és obrigada a perdoar para conseguires seguir em frente.
Se decidiste continuar na relação, podes precisar de tempo para perceber se a confiança está realmente a regressar.
Da mesma forma, quem traiu precisa de compreender que pedir desculpa não lhe dá o direito de determinar quando o assunto deve deixar de ser falado.
Ao mesmo tempo, se a relação continuar, será necessário encontrar gradualmente uma forma de não viver permanentemente dentro da traição.
Esse equilíbrio pode ser difícil de alcançar sem ajuda.
Quando procurar terapia?
Terapia de casal pode ser útil quando ambos querem perceber se a relação pode continuar, mas as conversas acabam sempre em discussões, acusações ou silêncio.
Também pode ajudar quando a intimidade sexual se tornou particularmente difícil.
A terapia individual pode ser igualmente importante, sobretudo se sentires ansiedade intensa, baixa autoestima, pensamentos repetitivos sobre aquilo que aconteceu ou dificuldade em perceber aquilo que realmente queres.
Procurar ajuda não significa que decidiram necessariamente ficar juntos.
Por vezes, o objetivo é precisamente perceber se existe uma relação que ambos querem reconstruir.
Perguntas frequentes
É possível recuperar uma relação depois de uma traição?
Sim, algumas relações conseguem recuperar. No entanto, isso depende das circunstâncias, da vontade das duas pessoas, da capacidade de reconstruir confiança e de existir responsabilidade real por aquilo que aconteceu.
Quanto tempo demora a recuperar a confiança?
Não existe um prazo universal. A confiança pode demorar bastante tempo a regressar e depende sobretudo da consistência dos comportamentos, da transparência e da forma como o casal trabalha aquilo que aconteceu.
É normal continuar a desejar sexualmente quem me traiu?
Sim. Desejo, amor, raiva e mágoa podem existir ao mesmo tempo. Sentires atração não significa que já perdoaste ou que aquilo que aconteceu deixou de ser importante.
Devo perguntar todos os detalhes da traição?
Tens direito à informação necessária para compreenderes aquilo que aconteceu e tomares decisões sobre a relação e a tua saúde. No entanto, detalhes sexuais muito específicos podem não ser úteis e podem alimentar comparações ou imagens mentais dolorosas.
Devemos fazer testes de infeções sexualmente transmissíveis?
Se existiu contacto sexual com outra pessoa, pode ser aconselhável procurar orientação médica sobre testes de IST. O profissional de saúde pode indicar quais são adequados e o melhor momento para os realizar.
Como posso voltar a ter sexo sem pensar na traição?
Não existe uma técnica que faça desaparecer imediatamente esses pensamentos. Começa devagar, comunica aquilo que sentes, estabelece limites e não te obrigues a continuar quando não estás confortável. Se os pensamentos forem persistentes e estiverem a impedir a intimidade, apoio psicológico ou terapia sexual pode ajudar.
Conclusão
Recuperar a intimidade depois de uma traição não começa necessariamente no quarto.
Começa quando voltas a sentir que podes comunicar, estabelecer limites, fazer perguntas e confiar gradualmente no comportamento da outra pessoa.
Não uses o sexo para provar que perdoaste, que continuas apaixonada ou que a relação está salva.
Dá espaço à proximidade emocional, recupera o contacto físico ao teu ritmo e fala abertamente sobre aquilo que precisas para te sentires segura.
Alguns casais conseguem reconstruir a relação. Outros percebem durante esse processo que preferem separar-se.
O objetivo não deve ser salvar a relação a qualquer custo. Deve ser perceber se ainda existe uma relação baseada em respeito, segurança, honestidade e vontade mútua que vale a pena reconstruir.




