O sexo casual faz parte da vida dos portugueses?
A resposta parece simples, mas os números contam uma história mais complexa.
Portugal dispõe hoje de dados muito mais detalhados sobre sexualidade, incluindo um estudo representativo baseado no questionário SHAPE.
Os resultados mostram uma população sexualmente ativa, mas também revelam que ter vários parceiros num curto período está longe de ser o comportamento dominante.
Aplicações de encontros, mudanças nas relações amorosas e um casamento cada vez mais tardio podem transmitir a ideia de que vivemos numa época dominada por encontros sem compromisso.
Mas será que os dados confirmam essa perceção?
A resposta curta é: o sexo casual existe em Portugal, mas ainda não temos uma percentagem nacional sólida que permita afirmar exatamente quantos portugueses o praticam.
E essa distinção é fundamental.
Afinal, o que significa sexo casual?
Não existe uma única definição quotidiana de sexo casual.
De uma forma geral, o conceito refere-se a atividade sexual entre adultos que não pressupõe necessariamente uma relação romântica estável ou compromisso de longo prazo.
Pode incluir um encontro ocasional entre duas pessoas que acabaram de se conhecer, parceiros que se encontram esporadicamente ou situações de “amigos com benefícios”.
O problema para quem procura estatísticas é evidente: perguntar a alguém quantos parceiros sexuais teve não é o mesmo que perguntar se teve sexo casual.
Uma pessoa pode ter tido dois parceiros num ano porque terminou uma relação e iniciou outra.
Outra pode ter mantido vários encontros casuais. Os números, isoladamente, não permitem distinguir as duas situações.
É por isso que devemos ter cuidado com títulos que afirmam que “X% dos portugueses pratica sexo casual” quando o estudo original apenas perguntou sobre parceiros ou frequência sexual.
O que sabemos sobre a vida sexual dos portugueses?
Uma das melhores fontes recentes para compreender o tema é o SHAPE: Questionário de Avaliação das Práticas e Experiências de Saúde Sexual.
O instrumento foi desenvolvido pela Organização Mundial da Saúde e aplicado em Portugal pelo Grupo de Investigação em Sexualidade e Género do Centro de Psicologia da Universidade do Porto.
A implementação portuguesa ganhou especial relevância porque foi a primeira realizada com uma amostra representativa da população.
O projeto procurou avaliar diferentes dimensões da saúde e do comportamento sexual, incluindo biografia sexual, práticas, dificuldades sexuais, violência, discriminação, identidade e direitos sexuais.
Ou seja, oferece uma fotografia muito mais abrangente da sexualidade em Portugal do que as habituais sondagens realizadas online.
E alguns resultados são surpreendentes.
Segundo os resultados divulgados do SHAPE, 34,9% das pessoas não tinham tido atividade sexual nas quatro semanas anteriores à participação no estudo.
Por outro lado, 60,8% indicaram atividade sexual com apenas uma pessoa nesse período.
Este é provavelmente um dos números mais interessantes para uma discussão sobre sexo casual.
60,8% estiveram sexualmente com apenas uma pessoa
A imagem popular de uma sociedade em que as pessoas saltam constantemente entre diferentes parceiros não encontra confirmação direta nestes números.
Nas quatro semanas anteriores ao questionário, 60,8% dos participantes tiveram atividade sexual com apenas uma pessoa.
Isso não significa que todos estivessem numa relação monogâmica.
Um parceiro sexual único durante quatro semanas pode ser namorado, marido, mulher, parceiro ocasional ou alguém numa relação sem compromisso.
Mas o dado mostra algo importante: múltiplos parceiros sexuais num curto intervalo de tempo não representam o padrão da maioria da população estudada.
Entre quem tinha tido atividade sexual durante as quatro semanas anteriores, a média reportada foi de 5,3 relações sexuais nesse período, pouco mais de uma por semana.
Curiosamente, a resposta mais frequente correspondia a apenas uma vez por mês.
Isto ajuda a separar realidade de perceção. A existência de aplicações de encontros e de uma cultura mais aberta em relação à sexualidade não significa automaticamente que a maioria das pessoas tenha muitos parceiros.
A primeira experiência sexual acontece aos 18,9 anos, em média
Outro resultado ajuda a compreender a biografia sexual dos portugueses.
O SHAPE indicou que 74% das pessoas iniciaram a atividade sexual com outra pessoa entre os 15 e os 21 anos.
A média foi de 18,9 anos.
O estudo também revelou que 2,7% dos participantes nunca tinham tido qualquer experiência sexual com outra pessoa.
Estes números são úteis porque mostram que não existe apenas um percurso sexual típico.
Há pessoas que iniciam a vida sexual mais cedo, outras mais tarde e algumas que não têm experiências sexuais com parceiros.
Da mesma forma, algumas procuram relações estáveis e outras preferem relações ocasionais em determinadas fases da vida.
A sexualidade portuguesa é, portanto, muito mais heterogénea do que algumas generalizações fazem parecer.
Os portugueses casam cada vez mais tarde
Há outra transformação social que merece atenção.
Em 1990, a idade média ao primeiro casamento em Portugal era de 26,2 anos para os homens e 24,2 para as mulheres.
Em 2025, tinha aumentado para 36,1 anos nos homens e 34,6 nas mulheres, segundo dados do INE disponibilizados pela PORDATA.
Em cerca de três décadas e meia, o primeiro casamento passou a acontecer aproximadamente uma década mais tarde.
Isto não prova um aumento do sexo casual.
Mas mostra que o percurso tradicional que ligava juventude, namoro, casamento e sexualidade se alterou profundamente.
Existe hoje um período muito mais longo da vida adulta antes do primeiro casamento.
Durante esses anos podem existir relações longas, coabitação, períodos sem parceiro, relações sucessivas e, naturalmente, encontros casuais.
O erro seria assumir que casamento tardio significa automaticamente mais parceiros sexuais. Os dados não permitem essa conclusão.
O que podemos afirmar é que as estruturas das relações mudaram.
As aplicações de encontros mudaram o sexo casual?
Plataformas como o Tinder e outras plataformas alteraram profundamente a forma como duas pessoas podem conhecer-se.
Antes das aplicações, encontrar um potencial parceiro dependia muito mais de redes sociais presenciais: amigos, escola, universidade, trabalho, bares, discotecas ou eventos.
Hoje é possível encontrar pessoas solteiras fora do círculo social habitual através de um telemóvel.
Isso reduz uma das grandes barreiras históricas ao encontro: descobrir quem está disponível e potencialmente interessado.
Contudo, é importante não confundir aplicações de encontros com aplicações para sexo casual.
Os utilizadores podem procurar objetivos muito diferentes: relacionamento sério, companhia, conversa, novos amigos, validação, namoro ou encontros sem compromisso.
Assim, o crescimento das aplicações torna os encontros entre desconhecidos mais acessíveis, mas não permite concluir que todos — ou sequer a maioria — procuram exclusivamente sexo.
O impacto talvez esteja sobretudo na infraestrutura do encontro: conhecer alguém fora da rede social tradicional tornou-se mais simples.
Sexo casual significa maior satisfação sexual?
Aqui aparece outro resultado particularmente interessante do estudo português.
Os dados do SHAPE revelaram níveis relevantes de insatisfação com a vida sexual. A Universidade do Porto explicou que o estudo pretende precisamente fornecer um diagnóstico da saúde sexual do país e apoiar o desenvolvimento de políticas públicas nesta área.
Isto lembra-nos de uma distinção importante: frequência sexual, número de parceiros e satisfação sexual são coisas diferentes.
Ter mais sexo não significa necessariamente estar mais satisfeito.
Da mesma maneira, ter vários parceiros não garante maior bem-estar, tal como ter apenas um parceiro não garante satisfação.
As motivações também são diferentes.
Para algumas pessoas, um encontro casual pode ser uma experiência positiva porque corresponde exatamente ao que pretendem naquele momento. Para outras, pode existir uma incompatibilidade entre aquilo que procuram emocionalmente e o tipo de relação que acabam por estabelecer.
O contexto e as expectativas importam.
O sexo casual é mais comum entre homens ou mulheres?
Esta é uma das perguntas mais procuradas e uma das que exige mais cuidado.
Há estudos internacionais sobre diferenças entre homens e mulheres relativamente à abertura ao sexo sem compromisso, mas não devemos importar automaticamente essas conclusões para Portugal.
Também existe um problema de autorrelato.
A sexualidade continua sujeita a normas sociais diferentes para homens e mulheres.
Dependendo do contexto cultural, algumas pessoas podem exagerar comportamentos considerados socialmente valorizados e outras podem omitir experiências por receio de julgamento.
Um estudo nacional representativo especificamente desenhado para medir sexo casual, distinguindo encontros únicos, amigos com benefícios e parceiros ocasionais, seria muito mais adequado para responder à questão.
Até lá, generalizações como “os homens portugueses têm muito mais sexo casual” ou “as mulheres portuguesas já têm tanto sexo casual como os homens” precisam de evidência antes de serem apresentadas como factos.
Sexo casual e saúde sexual
Independentemente de existir ou não uma relação amorosa, saúde sexual continua a ser relevante.
A Direção-Geral da Saúde salienta que o preservativo, quando utilizado correta e consistentemente, é altamente eficaz na prevenção da transmissão sexual do VIH, sendo igualmente uma medida de prevenção de outras infeções sexualmente transmissíveis e de gravidezes não desejadas.
A existência de novos ou múltiplos parceiros torna especialmente importante a comunicação sobre proteção, testes e saúde sexual.
Mas existe outra palavra essencial nesta discussão: consentimento.
Uma relação ser casual não altera a necessidade de consentimento livre entre adultos. A ausência de namoro, exclusividade ou compromisso não significa ausência de limites.
Os dados portugueses tornam esta questão particularmente relevante. O SHAPE incluiu a violência sexual entre as dimensões avaliadas, demonstrando que uma discussão séria sobre sexualidade não pode limitar-se ao número de parceiros.
Saúde sexual envolve segurança física, consentimento, comunicação e bem-estar.
Sexo casual é hoje socialmente aceite em Portugal?
Portugal mudou significativamente nas últimas décadas, mas é difícil reduzir as atitudes de toda a população a “liberal” ou “conservadora”.
Idade, contexto familiar, educação, religião, orientação sexual, região, círculo social e experiências pessoais podem influenciar profundamente a forma como alguém encara relações sem compromisso.
Há também uma diferença entre aceitar determinado comportamento nos outros e desejá-lo para si próprio.
Uma pessoa pode considerar perfeitamente legítimo que dois adultos tenham uma relação casual consensual e, simultaneamente, preferir exclusivamente relações estáveis na sua própria vida.
Aceitação social e comportamento individual são variáveis diferentes.
É precisamente esta diversidade que torna difícil falar de “os portugueses” como se existisse uma única atitude nacional perante o sexo.
Porque não sabemos exatamente quantos portugueses praticam sexo casual?
Esta é provavelmente a principal conclusão deste artigo.
Não existe, nos dados analisados, uma percentagem nacional suficientemente sólida que responda diretamente à pergunta “quantos portugueses praticam sexo casual?”.
Temos informação sobre atividade sexual.
Temos informação sobre frequência.
Temos informação sobre experiências e saúde sexual.
Temos dados sobre o número de pessoas com quem os participantes tiveram atividade sexual num determinado período.
Mas isso não equivale automaticamente a medir sexo casual.
Imagine duas pessoas que indicam ter tido atividade sexual com duas pessoas diferentes durante determinado ano.
A primeira terminou uma relação de cinco anos e, meses depois, começou um novo namoro.
A segunda teve dois encontros ocasionais sem intenção de voltar a encontrar os parceiros.
Estatisticamente, ambas podem aparecer como pessoas com dois parceiros. Relacionalmente, são situações completamente diferentes.
Por isso, qualquer artigo sério sobre sexo casual em Portugal deve reconhecer esta limitação.
Afinal, Portugal vive uma “cultura de sexo casual”?
Os dados não sustentam uma resposta simples.
Há transformações evidentes na sociedade portuguesa. O casamento ocorre muito mais tarde. As aplicações permitem conhecer pessoas fora das redes sociais tradicionais. Os modelos de relacionamento são mais diversos e existe investigação cada vez mais detalhada sobre sexualidade.
Ao mesmo tempo, o SHAPE mostrou que, nas quatro semanas anteriores ao estudo, 60,8% dos participantes tinham tido atividade sexual com apenas uma pessoa, enquanto 34,9% não tinham tido qualquer atividade sexual.
Portanto, a imagem de uma população constantemente envolvida com vários parceiros não corresponde àquilo que estes indicadores mostram.
A realidade parece ser muito mais interessante: diferentes formas de viver a intimidade coexistem.
Há casamentos, namoros, relações ocasionais, períodos de abstinência, relações sem compromisso e pessoas que simplesmente não procuram sexo.
O sexo casual faz parte desse universo — mas não é sinónimo da vida sexual portuguesa.
Perguntas frequentes sobre sexo casual em Portugal
O sexo casual é comum em Portugal?
Existe, mas não há uma estatística nacional robusta que permita indicar exatamente que percentagem dos portugueses pratica sexo casual. Estudos de saúde sexual fornecem indicadores relacionados, mas não devem ser confundidos com uma medição direta do fenómeno.
Quantos parceiros sexuais têm os portugueses?
Depende do período analisado e da definição utilizada. No SHAPE, 60,8% dos participantes reportaram atividade sexual com apenas uma pessoa nas quatro semanas anteriores ao estudo. Esse dado não corresponde ao número de parceiros ao longo da vida.
Com que idade os portugueses começam a ter relações sexuais?
Segundo os resultados divulgados do SHAPE, 74% iniciaram atividade sexual com outra pessoa entre os 15 e os 21 anos. A média registada foi de 18,9 anos.
Os portugueses têm relações sexuais todas as semanas?
Entre os participantes sexualmente ativos nas quatro semanas anteriores ao SHAPE, a média foi de 5,3 relações nesse período. Uma média, contudo, não representa necessariamente o comportamento de cada indivíduo.
Tinder significa necessariamente sexo casual?
Não. Aplicações de encontros podem facilitar o contacto entre potenciais parceiros, mas os utilizadores procuram diferentes tipos de interação e relacionamento. Usar uma aplicação não permite concluir qual é a intenção sexual ou romântica de uma pessoa.
Sexo casual aumenta o risco de infeções sexualmente transmissíveis?
O risco depende de fatores como práticas adotadas, utilização de proteção, número e características dos parceiros e estado de saúde. A DGS recomenda o uso correto e consistente do preservativo como medida altamente eficaz contra a transmissão sexual do VIH e também eficaz na prevenção de outras IST.
Ter vários parceiros significa praticar sexo casual?
Não necessariamente. Uma pessoa pode ter vários parceiros em momentos diferentes dentro de relações amorosas sucessivas. Número de parceiros e tipo de relacionamento são indicadores diferentes.
Os portugueses estão a casar mais tarde?
Sim. Segundo INE/PORDATA, a idade média ao primeiro casamento passou de 26,2 anos nos homens e 24,2 nas mulheres em 1990 para 36,1 e 34,6 anos, respetivamente, em 2025.
Conclusão: o que os estudos dizem realmente sobre sexo casual em Portugal?
O sexo casual em Portugal existe num contexto social muito diferente daquele de há três ou quatro décadas.
As pessoas casam mais tarde, existem novas formas de conhecer parceiros e os modelos de relacionamento tornaram-se mais diversificados.
Mas uma sociedade com maior liberdade para estabelecer relações não é necessariamente uma sociedade onde toda a gente tem vários parceiros.
Os dados do SHAPE ajudam a colocar a discussão em perspetiva: 34,9% dos participantes não tinham tido atividade sexual nas quatro semanas anteriores e 60,8% tinham estado sexualmente com apenas uma pessoa.
A conclusão mais rigorosa é, portanto, menos sensacionalista e mais interessante: não sabemos exatamente quantos portugueses praticam sexo casual, porque os melhores dados disponíveis medem dimensões relacionadas, mas não exatamente esse fenómeno.
Sabemos, contudo, que a sexualidade em Portugal é diversa e que números sobre frequência, parceiros, casamento e saúde sexual revelam uma realidade bastante mais complexa do que a ideia de que as aplicações de encontros transformaram toda a população numa “cultura de hookups”.




